Ermidas

A extensão das Lajes e o fervor dos crentes ainda motivam a instituição de ermidas, administrativamente dependentes da paroquial de S. Miguel. Neste caso, registamos a igreja de S. Brás, erigida possivelmente ainda no século XV, a capela de Nossa Senhora dos Remédios, construída já no século XVIII e a ermida do Imaculado Coração de Maria, sagrada há escassos anos, concretamente em 1988. Além disso, após a construção do aeroporto, também anotamos a edificação no cimo da Serra de Santiago da ermida de Nossa Senhora do Ar, protectora da navegação aérea inaugurada a 15 de Agosto de 1951, no perímetro da Base Aérea 4, possui administração própria, tutelada em primeira instância por um capelão, responsável perante a hierarquia eclesiástica militar. No entanto, a aglomeração das gentes nas cercanias do aeroporto leva igualmente à criação, ainda na Serra de Santiago, de um novo centro de culto, cuja acção pastoral depende da capelania da Base ou da paróquia das Lajes consoante a evolução das circunstâncias.

Ermida de Nossa Senhora dos Remédios:

A ermida de Nossa Senhora dos Remédios não origina um núcleo próprio de administração religiosa, com correspondência no mando político. De facto, a localização no centro das Lajes e as motivações piedosas da instituição impedem efectivamente a conversão em cabeça de uma circunscrição eclesiástica independente.

A origem da capela remonta porventura no século XVII, concretamente á veneração de uma imagem, resguardada á beira do caminho num nicho de pedra tosca. Porém, na era de setecentos, o acentuado crescimento da devoção possibilita a edificação do pequeno templo, que resulta da contribuição dos crentes, nomeadamente das esmolas de muitos anónimos e da doação de uma parcela de terreno, outorgada pelos descendentes de D. Inácio Castilblanco do Canto e Sampaio, precisamente e ainda em consideração á profunda fé do povo.

No processo conducente á edificação, avulta sobretudo a iniciativa do pedreiro José Vieira d’Areia, que até efectua um peditório de toda a ilha, tendente á arrecadação dos fundos indispensáveis á edificação da igreja e de um corpo de aposentos á arrecadação dos fundos indispensáveis á edificação da igreja e de um corpo de aposentos adjacentes, destinado ao amparo dos peregrinos. A motivação do construtor resulta do comprimento de uma promessa, após a absolvição em processo judicial. Com efeito, perseguido pela justiça do Pico, José de Vieira d’Areia obtém refúgio na Terceira, precisamente no lugar dos Remédios, no seio de uma furna existente sob o adro da actual igrejinha. Perdoaram, todavia, algumas dúvidas sobre a naturalidade do edificador. Assim, ao entendimento mais comum, que considera picoense, opõe-se a possibilidade de um nascimento na Praia, embora o filho de picarotes das Ribeiras, logo retorna com a criança á terra natal. Nesta perspectiva, ante a acusação criminal, José Vieira d’Areia busca a protecção da ilha-mãe. Após a consecução do indulto, retribui então o auxílio divino, através da fundação do novo templo.

A história de José Vieira d’Areia possui, entretanto, cambiantes bem distintos. Alfredo da Silva Sampaio, na sua Topografia da Ilha terceira, veicula uma versão relativamente diferente, que atribui ao próprio pedreiro do Pico o descobrimento da imagem da virgem na furna de refúgio. Esta tese atrasa em muito a difusão do culto de Nossa Senhora dos Remédios, que então avulta apenas po fenómeno típico do século XVIII. No entanto, contradiz os testemunhos de fontes históricas aparentemente mais fiáveis, relativos ao processo de edificação do templo, tido por consequência do fervor de uma devoção bem antiga.

A construção da ermida dos remédios sucede possivelmente em 1797 ou 1798, isto é entre a doação do terreno em1796 e a primeira ruina do edifício, que sucede logo e 1800/1801 na sequência da devastação da crise sísmica. Neste processo, avulta a concessão para todo o sempre de meio alqueire de terra, atribuída por escritura pública de 16 de Abril de 1796, a que se segue o acto de tomada de posse de terreno, ocorrido no próprio local a 10 de Setembro do mesmo ano. Os documentos de trespasse da propriedade, hoje guardados na Biblioteca Publica de Angra do Heroísmo, registam os nomes dos outorgantes e dos recebedores, contribuindo decisivamente para a clarificação do procedimento de edificação da igrejinha. Entre os doadores, assinalamos D. Joana Rita Xavier do Canto e Mello, viúva de D. Inácio Castilblaco de Canto e Sampaio e Mello, metre de campo e terço de infantariaauxiliar de Angra, representadis por um procurador, o sargento-mor Vital de Bettencourt Vasconcelos e Lemos. Entre os aceitantes, anotamos o vigário das Lages, Francisco José Maptista, representado pelo beneficiado, Sebastião Ferreira da Rosa, e ainda pelo próprio pedreiro, José Vieira d’Areia, já então zelador de Nossa Senhora dos Remédios com chancela episcopal.

Após a construção da capela, a acção dos homens e inclemência da natureza originam entretanto mutilações e ruínas, que por vezes obrigam ao restauro do edifício, A comprová-lo, em 1829, as pugnas do liberalismo determinam a remoção do sino, utilizado na cunhagem de moeda, após a sua forçosa fundição. Ademais relevam as consequências das crises sísmicas da primeira metade do século XIX. Neste particular, além dos estragos menos vultuosos dos abalos de 1800/1801, de pronto remediados por empenho do zelador, ressalta sobretudo a destruição do terramoto de 1841, desgosta profundamente o fundador, talvez por isso falecido dogo no ano seguinte de 1842. Na altura, o processo de reconstrução, igualmente célebre, decorre em 1842 e 1843, sob a direcção de Maria Madalena, viúva de José Vieira d’Areia, que suscita o apoio, aliás nunca recusado, do administrador José Silvestre Ribeiro. O desgosto do desmoronamento e a dificuldade da reedificação não reduzem o apego da família Vieira d’Areia , do padre Agostinho Vieira d’Areia, tudo isto até á aquisição por cerca de um século, sob as administrações do padre Lourenço Vieira d’ Areia , do padre Agostinho Vieira d’ Areia e de Agostinho Vieira d’ Areia, tudo isto até á aquisição por Manuel Caetano de Oliveira em 1936.

Em estudo dedicado às ermidas da Terceira, o padre Alfredo Lucas relata as principais incidências da construção e da história da capela lajense de Nossa Senhora dos Remédios. Entre diversos aspectos, assinala na dimensão artística a beleza do seu retábulo de pedra, encimado por ornatos elegantes, que talvez ainda hoje aconselhe uma visita ao local, onde também se conserva a furna de acolhimento e refúgio do fundador José Vieira d’Areia, situada sob o pequeno adro.

Ermida de Nossa Senhora dos Remédios

Ermida do Imaculado Coração de Maria:

Em finais de 1965, o bispo de Angra autoriza a prática regular do culto no Cabouco dos Ventos, numa dependência do então secador de tabaco, cedida gratuitamente pela firma “José Brás e Filhos, Lda.”. Por isso, em preito de gratidão por tamanha generosidade, o Semeador, de 12 de Fevereiro de 1967, anuncia a celebração de uma missa pelas melhoras de Henrique Brás, sócio proprietário da fábrica “Flor de Angra”. A abertura do novo centro litúrgico decorre da iniciativa do padre Lino Vieira Fagundes, muito apostado na melhoria da assistência religiosa, no princípio do seu longo e profícuo desempenho de pároco nas Lajes. Esta iniciativa decorre considerável distanciamento de um a parte significativa da denominada “ponta de trás” relativamente à igreja paroquial. A isto, ainda cresce a insuficiência dos transportes públicos, que motiva a exclusão, senão mesmo o isolamento, de um numeroso grupo de paroquianos, susceptível da procura de amparo pastoral em paragens de freguesias mais próximas, nomeadamente a Vila Nova e S. Brás. Assim, nova casa de religião cumpre o propósito de conseguimento da união da paróquia à maneira da identidade da família.

Em 1983, a degradação do secador e sobretudo as implicações da alienação das instalações obrigam à procura de uma nova solução, que salvaguarde para sempre a prática do culto no Cabouco dos ventos. A partir de então, a principal diligência consiste na obtenção de um terreno bem situado, que possibilite a edificação de uma ermida- De imediato, José Martins Marques Aguiar (Ramalho) oferece outro prédio, igualmente preterido ainda por força da posição, porque colocado atrás de uma moradia e, por conseguinte, sem livre acesso à via pública. Nestas circunstâncias, intenta-se a aquisição de um lote mais apropriado, mas a carestia das terras depressa demove semelhante intento, motivando a reapreciação das dádivas dos particulares. No mês de Abril de 1984, o boletim paroquial manifesta já um claro regozijo, uma vez que declara o seguinte: “Impossibilitamos de adquirir, agradecemos a Deus ter-nos deparado este terreno bem situado e espontaneamente cedido pelo seu proprietário”. Aparentemente, a garantia de um solo assegura a materialização do sonho de muitos lajenses da “ponta de trás”. Aliás, no mês seguinte, o optimismo persiste, pois também em notícia do Semeador considera-se o início da obra, “… em terreno oferecido pelo Sr. António Martins Aguiar e parte do terreno do Sr. Mateus Fagundes em frente ao caminho dos Lourais”, apenas dependente da resolução de simples burocracias.

A realidade avulta, entretanto, por bem diversa. De facto, a restante parte do ano de 1984 equivale a uma espécie de acumulação de inêxitos, caracterizados pela sobreposição de embaraços, que impedem o avanço do projecto de construção da ermida do Cabouco dos Ventos. Com efeito, uma sucessão de vicissitudes prolonga a incerteza e altera permanentemente as expectativas de consecução de um terreno apropriado até finais de 1985. Na altura, uma decisão governamental entreabre finalmente a superação de todos os problemas, pois motiva uma resolução de 17 de Janeiro de 1986, que declara a utilidade pública urgente dos terrenos, ordenando a sua expropriação. No início da Primavera, procede-se à nomeação do engenheiro-técnico encarregue da avaliação oficial, que se efectua no termo do Verão, resultando na fixação de um valor de 1500 contos, pago pela comissão fabriqueira da igreja das Lajes contra a tomada de posse do prédio.

As obras da nova ermida começam de imediato, pois no Natal de 1986 o boletim paroquial regista que a construção já está “redonda”. Por isso, a inauguração acontece desde inícios de 1988, nomeadamente a abertura ao público em 31 de Janeiro, quando ainda falta o arranjo urbanístico externo, seguida pela bênção e dedicação ao Imaculado Coração de Maria, que ocorre a 19 de Junho, em cerimónia solene presidia por D. Aurélio Granada Escuteiro. Aliás, é a visita episcopal que suscita o maior luzimento, marcando efectivamente a entrada em funcionamento do novo templo. As cerimónias principiam às 10 horas e incluem inicialmente uma recepção mais simples ao padre Lourenço Ávila, também ele o maior benemérito particular da capela do Cabouco dos Ventos, como já o fora da igreja paroquial. Depois, sucede o acolhimento do bispo, perante as autoridades locais, o padre Lourenço Ávila, clero lajense, fiéis e filarmónicas. Após a oferta de um ramo de flores e a declamação de um poema, ocorre a organização de um cortejo até à nova igrejinha, seguindo-se a bendição e a missa.

A generosidade particular e o apoio oficial constituem os meios que possibilitam a construção da ermida do Imaculado Coração de Maria. De facto, em 1984, 1986 e 1988 efectuam-se peditórios em benefício da capela do Cabouco dos Ventos, a que ainda acresce a realização de uma nova petição em 1991, agora apenas destinada à aquisição de uma carpete. Do mesmo modo, o pároco apela à contribuição dos emigrantes lajenses disseminados pelo Mundo, nomeadamente aos originários da denominada “ ponta de trás”, que muitas vezes capricham em magnanimidade, como sucede, por exemplo, com Manuel Martins Valadão (Estados Unidos), dador de 50 000$00. Além disso, por iniciativa própria, diversos paroquianos oferecem dádivas mais substanciais.

A comprová-lo, registemos os casos de Teotónio Rocha Meneses, que entrega 70 000$00, e de António Martins Aguiar (Ramalho), que em 1984 assume o compromisso da doação de 500 000$00, equivalente a metade do valor do prédio da antiga fábrica da chicória da Ribeira dos Pães, reservados ao auxílio da compra do terreno para implantação da nova casa de religião. Todavia, a dimensão do investimento suscita o recurso a todas as fontes de receita disponíveis, nomeadamente à reserva das colectas das missas rezadas no Cabouco dos Ventos. Do mesmo modo, avulta por utilitária a prestação gratuita de serviços e o donativo de recheios. Neste particular, anotemos três casos noticiados nas páginas do Semeador: João Silva Alves, carpinteiro da Ribeira da Areia, que procede ao aparelhamento das madeiras, José Hélio Rocha, projectista do edifício e envolvências, e Francisco Alberto Pereira Barcelos, que doa a mesinha das hóstias.

As páginas do Semeador equivalem ao melhor registo das contas relativas à construção da ermida do Imaculado Coração de Maria. Assim, aquando da abertura, no princípio de 1988, ainda antes da quantificação dos gastos com carpintaria e acabamentos, o balancete provisório manifesta a arrecadação de 6 415 792$00 contra o dispêndio de 6 751 950$00, donde resulta uma dívida de 336 158$00. Depois, o boletim paroquial de 16 de Julho 1988 regista cálculos mais definitivos, nomeadamente a receita de 6 775 989$00, sendo provenientes 3 921 752$20 do contributo de paroquianos e emigrantes, 1 154 237$00 da dádiva particular do padre Lourenço Ávila e 1 700 000$00 de compartição governamental, e a despesa de 7 661 219$00, 6 145 019$00 com a edificação do templo e 1 516 200$00 com a aquisição do terreno. De tudo, deriva um débito de 885 229$80, adiantado por António Martins Aguiar (675 229$80) e Manuel S. Gaspar Silva (210 000$00). Porém, logo no termo de 1988, após a realização de um dos peditórios, o passivo reduz-se à limitada quantia de 65 832$00, que já prognostica o fim de todos os compromissos.

Recentemente, a ermida ainda melhor se completa com a instalação, no respectivo campanário, do sino pequeno da igreja paroquial. No entanto, esta é uma solução de recurso, motivada pela desadequação do sino propositadamente encomendado à Fundição de Sinos de Rio Tinto. De facto, o novo sino revela-se extraordinariamente grande para a torre da ermida do Imaculado Coração de Maria. Nestas circunstâncias, a solução consiste na sua transferência para a paroquial de S. Miguel de Arcanjo, para a substituição de um sino rachado, procedendo-se ainda à troca pelo sino mais pequeno da igreja-mãe, que melhor se apropria à dimensão da sineira do Cabouco dos Ventos.

ERMIDA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

 

Centro de culto da Serra de Santiago:

No princípio de 1969, no seguimento da partida para o Ultramar do capelão da Base Aérea padre Eduardo Raposo Resendes, uma ordem episcopal coloca também na dependência da hierarquia eclesiástica das Lajes o centro de culto da Serra de Santiago. Recentemente, no começo de 1996, em virtude da degradação das instalações, a prática religiosa transita para o salão do Jardim de Infância da Santa Casa da Misericórdia, enquanto se procede à recuperação do edifício. Trata-se de uma comunidade peculiar, por força da separação imposta pela interposição do aeroporto, mas também pela diversa origem de muitos dos seus membros, facto que só diversifica e enriquece o universo paroquial das Lajes.

 

Centro de Culto da Serra de Santiago 3

 

Centro de Culto da Serra de Santiago 5